ANALOGISMO FECHADO, O COMPORTAMENTO EM COMUM ENTRE MENTE E MATÉRIA, por Ricardo Negreiros

O Analogismo Fechado (AF1) nasceu de uma suspeita simples - e difícil de ignorar: talvez não estejamos lidando com dois domínios inteiramente distintos, matéria e mente, mas com a repetição de um mesmo padrão de funcionamento, que apenas se torna mais complexo conforme o caminho.

A química e a física clássica descrevem como as substâncias se comportam, objetos se movem, interagem e evoluem no tempo. O AF1 propõe algo muito ousado: esse mesmo tipo de lógica parece estar por trás também do comportamento da mente, na nossa psicologia, nas nossas ações e decisões.

A ideia como um todo merece e precisa de aprofundamento, mas a suspeita surge a partir de evidências básicas e explícitas, que seguem mantendo a consistência quanto mais incrementamos a complexidade dos exemplos.

Assumo como início de tudo, na mente, os principais instintos, sobrevivência e reprodução (forças-raiz), das quais derivam as “forças emocionais” como vetores, com funções claras de direção e intensidade, tais como:

·         medo → força de autopreservação

·         desejo → força de aproximação e de aglutinação

·         raiva → força de aniquilação ou distanciamento

·         orgulho → força de seletividade associativa

Um breve conjunto de exemplos de estados psicológicos (emocionais) também nos ajuda a perceber essa equivalência:

Não é apenas um jogo de semântica. Ao investigar o mundo intangível da psicologia humana, outros elementos imateriais, como o valor atribuível ao dinheiro se tornam também paralelos evidentes com a energia, tal como conceituada no mundo da física: “a capacidade de realizar trabalho, produzir ação, movimento ou mudanças na matéria”. Não é isso que o dinheiro faz? Assim como sistemas físicos podem acumular energia para aumentar o seu potencial de ação, indivíduos procuram acumular recursos (dinheiro, capital social) para ampliar a sua capacidade de influência e transformação do ambiente em favor dos seus interesses.

Pense no básico da física: nada acontece sozinho. Um objeto muda de movimento porque uma força o empurra ou o puxa, sofre perturbações ao longo do caminho e carrega os efeitos do que já aconteceu antes. Agora olhe para a vida real com essa mesma lente. Uma decisão sua não surge do nada; ela é influenciada por desejos, medos, emoções, valores - forças vetoriais internas - e por forças geradas pelo ambiente, a cada momento - uma espécie de sistema de forças e variáveis que moldam sua trajetória ao longo do tempo, a sua rota, o seu estado de energia e mesmo entusiasmo.

Diante de obstáculos, frequentemente reagimos de forma proporcional - uma espécie de ação e reação comportamental. Sob pressão psicológica intensa, o nosso estado emocional se tensiona e falamos em “cabeça quente” - lembrando sistemas físicos, tais como gases, que sob compressão aumentam a sua temperatura. Com esse olhar, viver revela uma estrutura: um sistema em evolução, atravessado por forças, tensões e transformações. É difícil ignorar o paralelo com a física: múltiplas influências atuando simultaneamente, gerando um resultado, uma direção.

Vejamos alguns exemplos práticos da dinâmica:

1 - Em uma negociação para aquisição de bens, é possível comparar seus interesses a forças: preço, urgência, orgulho, necessidade - tudo empurrando para um lado. Do outro lado, forças vetoriais atuando em sentidos opostos… enquanto noutras situações, visando agrupamentos ou associações, somam-se forças no mesmo sentido. Os acordos finais, portanto, nunca são aleatórios, pois emergem dessas resultantes vetoriais.

2 - Quando dizemos uma metáfora como “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, não é apenas um ditado motivacional: descreve o efeito do acúmulo contínuo de pequenas forças ao longo do tempo. O mesmo vale para hábitos e comportamentos humanos - pequenas ações repetidas causam mudanças, pequenas ou grandes.

3 - Pontos de ruptura. Quantas vezes algo aparentemente pequeno - uma frase, um pequeno gesto - desencadeia uma reação emocional intensa? É a “gota d’água”. Na física e na química, sistemas acumulam energia até atingir um limiar e então podem mudar abruptamente de estado.

4 - Influência social. Algumas pessoas atraem naturalmente mais atenção, oportunidades e conexões. Quanto maior o “peso” social - poder, status, visibilidade - maior a sua capacidade de atração, a sua energia potencial. A analogia com a gravitação não seria literal, mas estrutural: mais “massa”, mais interação.

5 - Memória. Experiências não desaparecem; elas podem moldar o nosso estado presente. Uma decepção, uma conquista, um trauma podem alterar permanentemente as nossas reações. Na física, há um fenômeno semelhante chamado Histerese, em que o estado atual depende do caminho percorrido, e não apenas do estímulo presente.

6 - Imprevisibilidade. Costumamos pensar que a física clássica é totalmente previsível. No entanto, existem sistemas extremamente sensíveis a pequenas variações. Uma diferença mínima no início pode crescer a ponto de tornar o resultado imprevisível na prática. Esse comportamento é conhecido como “caos determinístico”, tipo o efeito borboleta. Tal como em nós, pequenas variações de contexto - uma palavra, um detalhe, um estado emocional - podem redirecionar completamente o resultado.

Há mais de 20 anos vivo a inquietude de refletir sobre tudo isso. São inúmeros exemplos dessa equivalência estrutural, inclusive nos ditados populares, em metáforas.

Se essa leitura estiver correta, não se tratará de projetar a física sobre a mente, ou vice-versa, mas essencialmente reconhecer um padrão comum que atravessa ambos. E aí o AF1 deixa de ser apenas uma curiosa e extensa lista de analogias e precisa se apresentar como uma hipótese sobre a própria infraestrutura da realidade.

O próximo passo se tornará ainda mais desafiador: conectar esse tipo de analogia aos níveis mais fundamentais, aos próprios quanta, que estruturam o universo. Mas isso fica para depois.

O que você acha?

Comentários