A contraditória visão do Papa Francisco sobre a proteção dos animais e do ambiente natural (por Ricardo Negreiros)

Há pouco tempo li a encíclica "Laudato si" do Papa Francisco, de 2015.
É uma obra belíssima, que retrata a inteligência e a perspicácia do papa num dos temas mais importantes da atualidade: a responsabilidade do ser humano diante do ambiente natural em que vive. Li porque queria conhecer a abordagem dele quanto à dignidade dos animais, posto que se autodenominou Papa Francisco, em homenagem ao humilde santo que também é o protetor dos bichinhos.
Apesar de divergir de maneira contundente de diversas opiniões da encíclica em tópicos de caráter econômico, e mesmo outros quanto à natureza humana, reconheci ali uma genuína e lúcida preocupação com o nosso mundo.
Porém, vi com tristeza uma sugestiva contradição em manifestação posterior. Discordo frontalmente da reclamação dele (2016) quanto às pessoas que cuidam mais de animais do que de outras pessoas. Essa não é uma posição de humildade, e sim de um arrogante antropocentrismo. O papa, assim como muitos padres, pastores e tantos outros líderes religiosos (e mesmo políticos), não querem aceitar nem valorizar que a abnegada ajuda a outros seres vivos, especialmente de outras espécies que não a nossa, requer um grau de doação pessoal e generosidade inalcançável e mesmo incompreensível por um indivíduo comum. Também não querem assumir que os animais, por sua imensa fragilidade, são muito mais frequentemente submetidos a grande crueldade. Defender e proteger os animais é um belíssimo ato de respeito à vida, a principal obra de Deus. O trabalho nobre, forte e inspirador dos protetores de animais se contrapõe altivamente à violência generalizada que tanto vemos no mundo. Deveria ser enaltecido e servir como exemplo.
Ao acreditarmos (ingenuamente) que a humanidade é intrinsecamente pura e boa da forma como somos hoje, esquecemos os fatores evolutivos de sucesso que levaram a nossa espécie (como tantas outras) a pensar sempre primeiro, ilimitadamente, em si e muito pouco no bem-estar dos outros. Ainda que devamos reconhecer que essa restrição decorre da nossa natureza, gostaria que o papa e tantos outros líderes religiosos reconhecessem essa  “conveniente cegueira” e rezassem e pregassem para que a transcendêssemos.
Parece-me muito difícil para o indivíduo comum perceber e aceitar o quão primitiva ainda é a nossa espécie, a nossa sociedade global.
De qualquer maneira, essa encíclica é um importante avanço para a religião e para a filosofia. Porém é ainda mais importante que seja transformada em discurso e prática no cotidiano, pois se os religiosos não se compadecem com o sofrimento dos animais, seres sencientes dotados das nossas mesmas emoções, imagine as contradições e o silêncio quanto ao meio ambiente?
Será que nessa história toda há conflitos de interesses? Afinal, pode ser que o papa e os líderes religiosos não queiram se confrontar com a poderosa indústria do abate que maltrata bilhões de animais anualmente, ou simplesmente com os incontáveis consumidores dela, com quem todos convivemos. 
Ou será, como reflito em outro post, “apenas” uma acomodação filosófica diante do equivocado dogma bíblico da subserviência animal preconizado em Gênesis, I?... 
Essa discussão fica para ser resolvida na consciência de cada um.

Segue o link da encíclica:
https://m.vatican.va/content/francescomobile/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

As críticas do papa, que poderiam ser mais conciliadoras:
https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2016/05/14/ha-quem-sente-compaixao-por-animais-mas-se-esquece-do-vizinho-diz-papa.htm
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/06/papa-ironiza-casais-que-preferem-animais-de-estimacao-filhos.html

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